Guia para Travessia Duas Cruzes-Morro do Chapéu

Cachoeiras escondidas e raramente frequentadas, visuais de tirar o fôlego, Cerrado preservado e uma dose de simpatia e hospitalidade. Com todos esses elementos, a Travessia Duas Cruzes-Morro do Chapéu, a mais nova travessia do Planalto Central, deve entrar na lista de desejos de qualquer trilheiro, em especial dos brasilienses e goianos. Localizada em São João d´Aliança, município considerado o Portal da Chapada dos Veadeiros, a trilha possui 30 km de extensão e conecta carreiros antigos, estradas e estradinhas de terra com pouco ou nenhum movimento, acompanhando as curvas da Serra do Paranã.

Apesar das trilhas e estradas já estarem lá há muito tempo, quem concebeu o roteiro ligando os caminhos e atrativos foi Geraldo Bertelli (mais conhecido como ‘Seu Geraldo”), guia e grande conhecedor da Chapada dos Veadeiros – e atual Secretário de Turismo de São João d´Aliança. Com o lançamento do Sistema Brasileiro de Trilhas de Longo Curso pelo ICMBIO, que prevê uma trilha de longo curso cortando o Estado de Goiás (Caminho dos Goyazes), começamos os trabalhos de levantamento de informações, mapeamento e planejamento da seção que ligará o DF à Chapada dos Veadeiros, posteriormente batizado de ‘Caminho dos Veadeiros’. Esse trabalho nos levou até o Sr. Geraldo, sua rota e as belezas escondidas de São João, cidade que se tornou meu refúgio nos finais de semana. Após algumas expedições de reconhecimento da rota com muito vara-mato e carrapatos, e com o apoio de voluntários e doadores, em 06 de setembro de 2019 a trilha foi lançada e divulgada no perfil oficial do Caminho dos Veadeiros na Wikiloc, pronta para uso.

A travessia Duas Cruzes-Morro do Chapéu foi concebida para ser percorrida em três dias com pernoite, mas pode ser percorrida em apenas um por corredores e apressados, e em dois para quem tem menos tempo mas não quer perder a contemplação. É possível, também, percorrer apenas o trecho Andorinhas-Morro do Chapéu com pequenos ajustes na logística. A trilha pode ser percorrida o ano todo, sendo a melhor época de maio a setembro. Os meses de outubro a abril correspondem a estação chuvosa no cerrado e há risco de cabeça d´água nos rios e cachoeiras. Recomenda-se cuidado redobrado na época de chuvas, principalmente ao cruzar rios e visitar as cachoeiras.

Ficha Resumo

  • Cidade-base: São João d´Aliança (GO)
  • Extensão: 29,6 km (ida)
  • Tipo: Travessia
  • Duração: dois ou três dias com pernoite;
  • Navegação: Fácil; Sinalização rústica do caminho principal. Seguir a marca do Caminho dos Veadeiros. No sentido Sul-Norte seguir as pegadas amarelas em fundo preto. No sentido Norte-Sul segue-se as pegadas pretas em fundo amarelo, porém a sinalização ainda não está completa neste sentido. Não há placas ou outros itens de direção.
  • Severidade do meio: Moderada-Alto
  • Esforço físico: Moderado
  • Tipo de terreno/ambiente: Terreno pedregoso e íngreme, pedras soltas, exposição ao sol na parte alta, pedras escorregadias especialmente nas cachoeiras (risco de morte)
  • Custos: não há cobrança de ingressos; camping na Fazenda do Alex R$ 20,00
  • Aviso prévio/Reserva: Não
  • Obrigatoriedade de guia: Não
  • Melhor época: a trilha pode ser percorrida o ano todo, sendo a melhor época de maio a setembro. Os meses de outubro a abril correspondem a estação chuvosa e há risco de cabeça d´água nos rios e cachoeiras e raios. Recomenda-se evitar a estação chuvosa ou ter cuidado redobrado. Se necessário, contrate um guia.
  • Acesso: saindo do centro de São João d´Aliança, continuar na BR 010 até a placa indicativa para a Cachoeira do Label. Seguir as placas, acessar a Estrada do Paranã e continuar 7,8 km a região das Duas Cruzes. Há uma porteira fechada com a sinalização do Caminho dos Veadeiros, ponto de início da travessia. Recomenda-se contratar serviço de transporte.
  • Rodoviária mais próxima: São João d´Aliança (Posto Zero Hora)
  • Aeroporto mais próximo: Aeroporto Internacional de Brasília – Presidente Juscelino Kubitschek (BSB)

A travessia em detalhes

Primeiro dia (Duas Cruzes-Andorinhas 9,7 km)

A trilha tem início na região das Duas Cruzes, que recebe esse nome porque, segundo a tradição local, na década de 70 pai e filho voltavam de compras na cidade e foram atingidos por um raio naquele ponto, vindo a óbito junto com seus cavalos. Em memória dos dois homens, duas cruzes foram colocadas ali. 

Para chegar ao início da trilha, é necessário combinar o transporte. Por padrão os carros são deixados no final da travessia, na Fazenda Eliza, e os trilheiros levados ao ponto de início. Pulando-se a porteira fechada, o caminho segue exclusivamente por uma estrada desativada que corta a área conhecida como ‘Fazenda do Japonês’. Após 1,2 km passa-se uma casa atualmente abandonada, antiga casa do caseiro. O caminho desvia levemente à esquerda, e retoma a estrada. Em mais 1,2 km chega-se à construção inacabada da sede da fazenda, que pode servir de abrigo em caso de emergência. Na bifurcação, mantenha-se à esquerda, seguindo reto e orientando-se pela sinalização. A estrada cortará um pequeno pasto, onde há uma antena e placa solar. Este ponto fornece uma belo visual dos morrotes e vales da Serra do Paranã.

Porteira fechada da Fazenda do Japonês, início da travessia. Marcas do Caminho dos Veadeiros nos mourões. Foto: Samuel F. Schwaida

O caminho segue pela estrada principal cortando o que parece ser um Cerrado Rupestre ou Cerrado Ralo muito bem preservado e após 8,7 km do início chega-se ao ‘Alto da Andorinhas’, onde é possível ver parte do vale do Extrema, rio que forma a Cachoeira do Label – maior cachoeira de Goiás, com 187m de altura – e onde se situa o topo da cachoeira. Mais além no horizonte é possível ver o lago do Paranã. O ‘Alto da Andorinhas’ é também um dos pontos de divisão do trajeto de bicicleta e caminhada do Caminho dos Veadeiros. A trilha de caminhada segue à direita, descendo a serra no sentido da Cachoeira das Andorinhas, enquanto a de bicicleta segue a estrada até encontrar a GO 236. Segue-se a sinalização do Caminho dos Veadeiros por mais 1 km e em pouco tempo chega-se a um curral abandonado. Este é o único ponto de pernoite autorizado na região da Andorinhas e ainda não conta com nenhum manejo. Sempre verifique e esteja atento quanto à presença de animais peçonhentos, abelhas e marimbondos. Não há água ao redor do curral, sendo necessário ir até o rio Rodeador, a apenas 400m do curral seguindo as pegadas amarelas. Os melhores pontos de água estão no poço superior, na a pequena queda e no veio de água na margem direita. Os poços ora esverdeados, ora azulados, são ótimos para banho. A área de camping não possui nenhuma área delimitada para banheiro, portanto leve seu shit tube!

Chegando ao ‘Alto da Andorinhas’. Foto: Samuel F. Schwaida
Poço superior, à montante do ponto de travessia do rio, no fim do dia. Foto: Samuel F. Schwaida

Segundo dia (Andorinhas-Alex 10,9 km)

No segundo dia, após um bom café da manhã e talvez um banho nos poços superiores, é possível fazer um ataque até a base da cachoeira das Andorinhas. A trilha de ataque inicia após o rio, à direita e é sinalizada com marcas amarelas nas árvores. São aproximadamente 15 min do rio até a base da Cachoeira das Andorinhas, uma linda e fina queda em um imenso paredão, com sombra constante. Não há poço para banho e as pedras são escorregadias, exigindo atenção, mas o lugar é incrivelmente belo e silencioso.

A bela e pouco conhecida Cachoeira das Andorinhas. Foto: Samuel F. Schwaida

Para continuar a travessia, é necessário retornar ao rio e seguir a sinalização do Caminho dos Veadeiros ao longo de uma antiga trilha cavaleira ainda utilizada por moradores da região. Após 1,5 km chega-se ao Mirante do Vale do Extrema, ponto de parada obrigatório. Dali segue-se mais 330m até uma estrada de terra, onde toma-se a direita, sendo necessário pular a cerca, adentrando na propriedade do Sr. Aprígio, sujeito muito receptivo mas que nem sempre está pela área. A caminhada segue por mais 4,5 km pela estrada abandonada, onde será possível ver várias pegadas de seriemas, felinos, antas e outros animais. A estrada acaba na descida da serra e dá lugar a outra trilha cavaleira antiga. Esse é um trecho bastante interessante da trilha, por conta da vegetação densa de mata seca que faz lembrar a Mata Atlântica, mas é também o trecho com maior concentração de carrapatos! Calça por dentro das meias e manga longa são fundamentais para diminuir a infestação.

Parte do caminho pode estar tomado por mato fechado, principalmente na estação chuvosa, o que pode dificultar a caminhada, mas em breve receberá o manejo adequado. No final da descida chega-se a um córrego de água limpa e gelada que nasce na propriedade e onde é possível abastecer os cantis. A trilha segue pela mata de galeria – o que é um alento após horas sob o sol – até uma cerca de madeira que deve ser cruzada e ,então, ora pelas pedras no leito, ora pelas margens, até acompanhar um cano de captação de água na margem esquerda e sair da mata fechada em uma área de pasto. Em mais alguns quilômetros chega-se a sede da fazenda onde moram os simpáticos e receptivos Alex e Juliana e onde é possível pernoitar. 

A caminho da fazenda do Alex, antes de chegar ao rio. As marcas do Caminho dos Veadeiros indicam a direção. Foto: Samuel F. Schwaida

A área ainda não conta com estrutura complexa para camping mas há muito espaço para armar barracas e é possível utilizar o banheiro e chuveiro da casa. A água da pia externa é potável e o valor do pernoite é de R$ 20,00 e deve ser pago em dinheiro ao Alex ou Juliana. A família produz principalmente mandioca. Em nossa última expedição antes da liberação da trilha nos serviram mandioca cozida e torresmo: uma humilhação à minha comida liofilizada sem muito sabor.

Terceiro dia (Alex-Morro do Chapéu 9 km)

No terceiro dia é possível acordar mais tarde, mas vale a pena dar uma olhada no nascer do sol, quando tons laranjas tingem o Vale do Paranã e as encostas da Serra acima da fazenda. Pela manhã deve-se visitar a Cachoeira São Mateus (ou Cachoeira do Alex), a menos de 1 km da sede da fazenda. A trilha é bem batida e há poços para banho na parte alta e baixa da cachoeira. Na parte baixa há um poço de águas bem geladas e esverdeadas, um bom local para aquietar e desligar a cabeça pela manhã.

Vale do Paranã ao amanhecer visto da área de camping. Foto: Samuel F. Schwaida
Topo da Cachoeira São Mateus. Foto: Samuel F. Schwaida
Cachoeira São Mateus. Foto: Samuel F. Schwaida

De volta à sede da fazenda, a travessia segue por estrada de terra e tem os paredões da serra como pano de fundo. Após 1,3 km, já em outra propriedade, chega-se ao Palmeiral, uma área onde toda a vegetação foi retirada para plantio de pasto, exceto as palmeiras, mas que hoje está abandonada. Aproximadamente 3,3 km após a fazenda do Alex, há uma bifurcação: à direita a casa de D. Nilza e Seu Virgílio, onde é possível abastecer de água e comprar doce de leite artesanal; à esquerda continua-se a subida da estrada, margeando o Morro do Chapéu. A subida é exigente.

Palmeiral. Foto: Samuel F. Schwaida

Na altura do km 26 da travessia é possível fazer um bate-volta até o cume do Morro do Chapéu e ter um uma vista única do Vale do Paranã. Ainda não há trilha aberta ou demarcada para o cume do Morro do Chapéu e há presença de animais peçonhentos – ouvimos o guizado de uma cascavel na última passagem. Enquanto a trilha e a sinalização não ficam prontas, fica a recomendação de atenção redobrada e uso de perneira. Da base do Morro do Chapéu, são mais 2 km até a Fazenda Eliza, o ponto de referência para resgate/final da travessia.

Vista do cume do Morro do Chapéu. Foto: Samuel F. Schwaida

Recomendações

  • Esta trilha está situada em ambiente sensível e em terras privadas, com pernoite em propriedade rural familiar. A conduta consciente dos visitantes é essencial para que a visitação continue autorizada. Respeite as regras e costumes locais. É desaconselhado o consumo de bebidas alcoólicas e outras substâncias e uso de som alto.
  • Não faça fogueiras.
  • Não alimente animais, não colete nenhum tipo de material e deixe as caixinhas de som em casa. O som alto perturba a fauna e os demais trilheiros.
  • Para preservar a qualidade da água e do solo utilize sabonetes e detergentes biodegradáveis (ex: sabão de côco). Retire e guarde todos os resíduos de alimento de pratos e panelas e lave as louças a pelo menos 50m do rio.
  • Leve todo seu lixo de volta. O lixo orgânico pode ser deixado na fazenda do Alex.
  • Combine os detalhes de transporte com um dos contatos listados abaixo.
  • Recomenda-se a visitação em grupos pequenos, de no máximo 6 pessoas.
  • A abertura e sinalização é fruto do trabalho de voluntários no âmbito do projeto ‘Caminho dos Veadeiros’. Não danifique, remova ou altere a sinalização.
  • As informações aqui contidas não são um incentivo a visitas desprogramadas ou despreparadas. Trata-se de rota de trekking em ambiente natural, sendo necessário conhecimento das técnicas, equipamentos e riscos envolvidos. Você é o principal responsável por sua própria segurança. Na dúvida, contrate um guia.
  • Todas as atividades e materiais do Caminho dos Veadeiros são desenvolvidos de forma voluntária e sem fins lucrativos por praticantes e entusiastas amadores.
  • Ambientes naturais estão sujeitos a mudanças e as informações aqui apresentadas podem se encontrar desatualizadas. Não nos responsabilizamos por eventuais inconsistências ou acidentes decorrentes da prática esportiva.
  • É comum que a sinalização se desgaste ou até mesmo desapareça com o tempo. Por segurança tenha o tracklog da trilha carregado em seu Smartphone ou GPS.
  • Sempre informe alguém sobre seus planos, itinerário detalhado, composição do grupo e horário previsto de retorno. Tenha à mão os dados de cada integrante do seu grupo, incluindo tipo sanguíneo, informações sobre alergias e contato de emergência.

Contatos

  • Geraldo Bertelli (transporte, informações, pernoite em São João d´Aliança, guia): 62 996694729
  • Zéria (transporte, informações, guia): 62 998461082
  • Lucimar (translado, guia): 62 998246484
  • Márcio (translado, informações): 61 981322445
  • Alex (informações, camping): 62 996663846
  • Samuel (aluguel de equipamentos em Brasília): 61 999338383
  • Chapéu de Sol (pernoite em São João d´Aliança): 62 996461621
  • Pousada Vitória (pernoite em São João d´Aliança): 62 996487792
  • Hotel Almeida (pernoite em São João d´Aliança): 62 3438-1923

Checklist básico

  • Mochila cargueira (mínimo 45L)
  • Barraca ou rede
  • Saco de dormir com temperatura de conforto entre 10 e 12ºC
  • Isolante
  • Bota para trekking
  • Chinelo
  • Meia de cano longo
  • Roupas leves para caminhada
  • Roupa de banho
  • Buff
  • Boné/chapéu
  • Óculos de sol
  • Protetor solar
  • Bastão de caminhada
  • Kit de primeiros socorros
  • Lanterna de cabeça com pilhas reserva
  • Reservatórios para 3 L de água
  • Smartphone com App de navegação e cópia do tracklog
  • Fogareiro e kit de cozinha
  • Alimentação para três dias e duas noites
  • Papel higiênico e shit tube
  • Dinheiro (Camping R$ 20,00; Transporte a combinar)
  • Tracklog (clique aqui para baixar)

2 comentários Adicione o seu

  1. Geraldo Hermes Bertelli disse:

    Nossa!!! Exelente texto, suspeito de comentar qualquer coisa a respeito, ja fiz várias vezes esse e os trechos que antecedem o mesmo. Sem contar com a sequência que nos leva ao Distrito do Forte passando pelo Santuário das Pedras (Macaquinhos) pela trilha do Banguê onde subiu a Coluna Prestes em 1926. Top das galáxias, quando as pessoas descobrirem essa monumental paisagem ficará marcada na memória do transeunte beleza e mais beleza. Boa sorte pra quem for forte e corajoso o bastante…

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  2. Nil Melo disse:

    Eu quero fazer essa travessia em breve…

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