À sombra das torres: 7 dias no circuito O em Torres del Paine

Atenção:  
Esse relato é de 2016. Valores e regras no Parque Nacional Torres del Paine podem ter sofrido alterações desde a última atualização deste texto. Sempre confirme as informações no site oficial do Parque.

Em tempos de usar o carro para ir até a esquina de casa, a ideia de percorrer a pé uma distância equivalente a ir de São Paulo até Taubaté, ou do Rio de Janeiro até Volta Redonda, traz vários “mas” e “ e se” para se pensar. Em janeiro de 2016, desafiando a lógica da zona de conforto e pensamentos contrários e depois de uma boa preparação, resolvi percorrer em 7 dias o Circuito O, no Parque Nacional de Torres del Paine, na Patagônia Chilena. Esse foi o clímax de um mochilão de 26 dias pela Patagônia, sonho antigo, que passou também por Ushuaia, El Chaltén e El Calafate e ao qual juntaram-se dois amigos do grupo Trekking Brasília, Luzardo Alves e João Paulo Marques. (Caso deseje ler o relato da viagem completa, clique aqui).

O Parque de Torres del Paine é considerado um dos mais famosos e belos destinos de trekking do mundo e está localizado na Região de Magalhães e Antártica Chilena. Com uma área de 227,298 hectares de natureza selvagem, colossal e exuberante, é o terceiro parque mais visitado do Chile, chegando a 155 mil visitantes ao ano, de crianças a idosos, do mais largado ao mais exigente viajante, graças à sua excelente infraestrutura, diferentes atrativos e opções de visitação, hospedagem e alimentação. O Circuito O, também conhecido como Paine Grande ou Circuito Macizo Paine, se estende por mais de 120 km de trilhas muito bem sinalizadas, cortando vales, bosques, campos e passando próximo a glaciares. É um trekking pesado que pode ser percorrido entre 5 a 10 dias de forma autônoma ou não, sendo possível pernoitar em abrigos, comprar refeições ou pacotes de refeições e até mesmo transportar a mochila em mulas. A melhor época para ir é de outubro a abril, quando o tempo é mais estável e os dias mais longos, com até 16 horas de luz. Nós pegamos tempo bom em todos os dias, mas como o clima patagônico é imprevisível, o caminhante deve estar preparado para enfrentar vento, chuva e neve.

Como chegar
A porta de entrada de Torres del Paine é a simpática e pacata cidade de Puerto Natales, onde chegamos na tarde do dia 1 de janeiro de 2016, vindo de ônibus de Ushuaia. A cidade conta com boas e acessíveis opções de hospedagem e alimentação, além de diversas lojas de venda e aluguel de equipamentos. O aeroporto mais próximos de Puerto Natales é o de Punta Arenas, a 247km, de onde pode-se tomar um ônibus (3h). Há voos diários partindo de Santiago a Punta Arenas. Também é possível ir por terra a partir de El Calafate (5h) e de Ushuaia (12h até Punta Arenas) ou de barco a partir de Puerto Montt (4 dias). Na rodoviária de Puerto Natales pode-se comprar a passagem para o Parque. Os preços são tabelados e os ônibus partem diariamente às 7:30 e às 14:30. Como no verão há luz até as 22h, optamos por pegar o ônibus das 14:30 no dia 02.

Dia-a-dia no Circuito O

1º Dia: Laguna Amarga-Serón (16 km)
A viagem até o parque é de 2h30min. As rápidas nuvens de poeira e o chacoalhar do ônibus quando nos aproximávamos do Parque deram uma noção da força dos ventos. Chegando na Portaria da Laguna Amarga, preenche-se um formulário, paga-se a taxa de entrada, e assiste-se ao vídeo instrutivo. Nós também fizemos a reserva para os campings Italiano e Torres, que são bastante concorridos por serem gratuitos e por estarem próximos ao Valle del Francês e ao Mirador de las Torres, respectivamente. Felizmente nossa reserva era para dali a 5 e 6 dias, caso contrário, não haveria vagas. Essa reserva pode ser feita também no escritório do CONAF, em Puerto Natales. Cantis carregados, mochilas nas costas, uma foto para registrar o dia e iniciamos nossa marcha, por volta das 17:45.

A primeira parte do percurso foi caracterizada por vento forte e constante, vindo das Torres. Os bastões de caminhada foram muito úteis para manter o equilíbrio, mas era impossível manter uma linha reta na caminhada. À medida que se caminha, aumenta a grandiosidade e beleza dos rios e da vegetação. Quando contemplei o Rio Paine, me detive durante alguns minutos para que meus olhos captassem e minha mente gravasse aquela visão majestosa. Mais adiante, passa-se por campos cobertos de flores brancas à semelhança de margaridas, que de tão numerosas, davam a aparência de os campos estarem cobertos de neve.

Alcançamos o Camping Serón por volta das 21:30. Às 22h começaram os primeiros indícios do anoitecer. Sentamos, esticamos as pernas por um momento e em seguida montamos nossa barraca e preparamos a janta. O período entre o deitar e o amanhecer foi como um coma de algumas horas devido ao cansaço. 

2º Dia: Serón-Disckson (18 km)
A caminhada do segundo dia é longa e cansativa, em ascensão por cerca de 9 km. A subida é gradual nos primeiros quilômetros, aumentando o desnível cerca de 4,5 km depois do Camping Serón. A caminhada, no entanto, é recompensadora, com belas paisagens desde o início, em especial após a conquista do Paso del Viento, de onde se tem a visão do Lago Paine, guardado por uma impressionante cadeia de montanhas ao fundo. De lá, continua-se em descida, numa caminhada mais leve, mas não menos cansativa e cercada por lagos, descampados, manchas de floresta andina, picos nevados e vislumbres de glaciares.

Após 8h horas de caminhada e já no entardecer, a visão do Camping Dickson além de reconfortante, foi fabulosa. Aqui me chamou a atenção uma dupla de senhores norte americanos, aparentemente entre 55 e 65 anos que também estavam percorrendo o Circuito O de forma autônoma, o que me fez pensar se envelhecerei com a mesma energia. A paisagem no camping Dickson à noite ganha uma beleza a mais, com destaque para a praia do lago. Nessa noite o céu escurecia aos poucos, e na verdade, não há escuridão completa, pois a luz sobrevive atrás dos cumes.

3º Dia: Dickson-Los Perros (11 km)
Este dia é de ascensão, saindo-se aproximadamente de 210 m para 570 m de altitude, e novamente com belas paisagens, percorrendo-se o vale do Rio Los Perros e com a floresta andina marcando presença. Um dos momentos mais gratificantes deste dia é o visual do Valle de los Perros. Após esse momento, as paisagens não mudam muito e o entretenimento passa a ser ruminar pensamentos, procurar respostas e reencontrar lembranças. À medida que se aproxima do Glaciar Los Perros o desnível é maior e o terreno mais pedregoso. O glaciar e seu lago não impressionam tanto quanto o vale mais adiante. Mais alguns quilômetros e chega-se ao Camping Los Perros, um perfeito cenário para um filme de terror com seu bosque uniforme e árvores esparsas. Ainda era cedo quando chegamos e, apesar do vento gelado, o sol brilhava forte, atraindo os caminhantes para uma área descampada, onde se agrupavam e deitavam, absorvidos pelo cansaço.

4º Dia: Los Perros-Grey e o famoso Paso John Gardner (14 km)
As expectativas estavam altas, devido às várias descrições do “trecho mais difícil de todo o circuito”, da força dos “ventos cortantes”, combinadas com os elogios ao “visual mais impressionante”. A caminhada inicia por um carreiro discreto entre as árvores, que dada a inclinação desde os primeiros metros, já fornece uma amostra dos quilômetros que vem a seguir. O trecho segue morro acima, sob as árvores na maior parte do tempo e cruzando charcos. Chegando ao fim da primeira subida, segue-se a sinalização dos canos laranjas, por uma subida menos íngreme, cortada por alguns córregos com água límpida, até chegar a um ponto em que a inclinação aumenta abruptamente, que esconde a última subida antes do Paso. O visual lá é realmente espetacular, proporcional à força e ao frio dos ventos, por isso o uso de segunda pele e luvas nesta etapa é altamente recomendado. Este é o ponto mais alto de todo o percurso, com aproximadamente 1.200m. Após cruzá-lo, inicia-se a descida tão íngreme quanto a subida e cerca de uma ou uma hora e meia depois, chega-se ao Camping Paso.

O caminho até o Camping Grey continua sob a sombra da floresta andina, com poucas mudanças na paisagem, até o momento em que se começa a ver o Lago Grey. A grandiosidade da paisagem fica ainda mais evidente quando se observa as pessoas remando em caiaques em direção ao glaciar. Nos último quilômetros antes do Camping Grey há uma grande ponte pênsil sobre um alto despenhadeiro. De um lado, a cordilheira Paine, do outro lado, o fim do Glaciar Grey.

Chegamos ao Camping Grey perto das 20:30 horas, cerca de 10h depois de deixarmos Los Perros. Como este é um dos pontos do Percurso W, a quantidade de visitantes é muito maior, assim como o número de barracas, o que dificulta encontrar um lugar na cozinha e para armar a barraca.

5º Dia: Grey-Italianos (17,5 km)
Nesse dia pulamos o camping Paine Grande e seguimos direto para o Italianos. Poucos metros após deixarmos os limites do Camping Grey, fomos surpreendidos e agraciados com o aparecimento de um Zorro (Lycalopex culpaeus), vindo em sentido contrário. O animal parou a menos de 10 metros de distância, encarando-nos por alguns segundos, até sair silenciosamente da trilha, em direção às árvores.

O relevo neste trecho facilita a caminhada. A trilha é bem aberta, cortando uma vegetação mais esparsa e acompanhando o lago Grey. A grandiosidade do glaciar continua imperando na paisagem e a quantidade de caminhantes nos dois sentidos assusta em um primeiro momento, pois na parte mais remota do Circuito O chega-se a ficar horas sem ver outras pessoas. Um ponto que vale a pena mencionar é a existência de um mirante natural localizado após o Mirador (considerando o sentido Grey-Paine Grande), que é possível atingir através de uma leve escalaminhada e de onde se tem uma bela visão.

O céu estava particularmente interessante durante todo o trecho até o Paine Grande, com nuvens formando padrões e sequências. Cerca de 2h45min depois de deixarmos o Grey, chegamos ao camping  Paine Grande, que é de uma beleza singular, combinando campos, a água azul turquesa do Lago Pehoé e a montanha Paine Grande tão próxima. Após o almoço seguimos rumo ao Camping Italianos. Não há muitos pontos de água limpa até a metade do trecho, sendo recomendável abastecer o cantil antes de partir. Algumas centenas de metros percorridos e chega-se nas proximidades do Lago Sköttsberg, onde quase fomos lançados ao chão por rajadas de vento repentinas. Nos quilômetros seguintes a esse trecho nosso ritmo foi diminuindo. Já era o quinto dia e o corpo começava a dar sinais de cansaço. Os 7,5 km do Paine Grande até o Italianos já não eram mais “apenas” 7,5 km. 

Após o Lago Sköttsberg a trilha segue pelos bosques na maior parte do tempo, avistando-se algumas cachoeiras. Chegamos ao Italianos por volta das 18h, cruzando as rápidas águas do Rio Francês por uma ponte pênsil. Aqui vale a pena dormir mais tarde e apreciar o anoitecer às margens do rio. Já havíamos conquistado cerca de 76,5 km do circuito e o outro dia seria o mais intenso de todos, pois faríamos o ataque ao Mirador Britânico e prosseguiríamos rumo ao Camping Torres, o que totaliza cerca de 31 km num único dia.

6º Dia: Italianos-Valle del Frances-Torres (31 km)
Acordei às 5h e segui só rumo ao Mirador Britânico, acompanhado pelo estrondo dos blocos de gelo que se deslocam e caem do Glaciar del Francés. Cerca de 45 minutos depois alcancei o Mirador do Vale del Francês. Prossegue-se ainda sob às árvores em relevo mais regular, o que permite um ritmo mais rápido de caminhada até a floresta acabar, revelando uma imensa clareira. Para mim esse foi um dos momentos mais magníficos de todo o percurso: ser um insignificante e solitário intruso num imenso vale cercado por enormes paredes de granito sob um céu cinza. Confesso que meus olhos marejaram. Como escalador entusiasta, comecei a imaginar como seria escalar aquelas paredes, embora ainda haja muito o que evoluir para escalá-las. 

A trilha volta a entrar na floresta e segue até o Camping Britânico, que é exclusivo para escaladores. Pouco tempo depois chega-se ao alto do Mirador Britânico, onde fiquei por pouco tempo pois uma garoa começava a cair e o céu ficava mais fechado. Despedi-me do local e do horizonte e iniciei o retorno cruzando com as primeiras pessoas apenas depois de percorrer dois terços do trajeto de volta. Possivelmente fui a primeira pessoa a percorrer o trecho naquele dia. Às 11h iniciamos a caminhada rumo ao Camping Torres e às 13 horas atingimos o Camping Los Cuernos onde fizemos uma pausa de menos de 1 hora para comer e descansar as pernas. Continuamos a marcha, com o Monte Almirante Neto à esquerda e o belo Lago Nordenskjöld à direita, até chegarmos a bifurcação do “atalho” ao Camping Chileno, que não é necessariamente um caminho sem dificuldades, pois trata-se de uma redução no tempo e exigência física, não eliminação. O caminho é sinuoso, com muitas variações no terreno e um ganho de mais de 300m de altitude até a confluência do caminho para o Chileno, que tem uma beleza singular, beirando o enorme vale por onde, centenas de metros abaixo, corre o Rio Ascencio.

Era por volta de 19:30 quando chegamos ao Camping Chileno. Após uma pausa de cerca de 40 minutos seguimos, com os primeiros sinais de entardecer. Felizmente ainda tínhamos tempo, mas já demonstrávamos certa irritação, pois o dia havia sido cansativo, as distâncias longas e a essa altura, pareciam ainda mais longas. 1h30min depois de deixarmos o Chileno chegamos ao Camping Torres. Com pouco diálogo, apenas comemoramos e nos parabenizamos.  Armamos a barraca num dos poucos lugares disponíveis, preparamos a janta e fomos dormir cerca de meia noite.

7º Dia: Torres-Torres del Paine-Laguna Amarga (17 km)
A noite foi incômoda, com temperatura baixa, solo abaixo da barraca duro e irregular e os músculos pareceram não relaxar. Levantei às 4:15 e me juntei à procissão dos caminhantes ávidos por assistir ao espetáculo das torres avermelhadas ao nascer do sol. Esse é o melhor motivo para se pernoitar no Camping Torres. À medida que os raios de sol surgem no horizonte, todo o local ganha novas cores. As pontas das Torres tingem-se de um alaranjado forte, contrastando com o cinza da base. Infelizmente não houve o tingimento total das Torres, mas mesmo assim, fiquei satisfeito.  Mais alguns minutos e o amarelo predominou no local e a temperatura aumentou, revigorando o corpo cansado. Fato é que a caminhada até as Torres é recompensadora em qualquer horário.

Um pouco mais tarde, João e Luzardo chegaram. Admiramos a imponência das Torres por mais alguns momentos e às 8h iniciamos a descida, chegando ao acampamento às 9h e partindo às 10h. No trajeto de volta, muita movimentação no sentido contrário e várias paradas para passagem dos séquitos de turistas montados a cavalos – que tem preferência. Em 2h50min estávamos no Refúgio Las Torres. Embora o consenso geral é de que aí o percurso está finalizado, havendo opção de percorrer os 7 km até a Portaria Laguna Amarga de ônibus, decidi ir a pé, rendido à vontade e a um excesso de purismo e literalidade. Diversas vezes olhei para trás para guardar a paisagem na memória até afastar-me por completo. Às 14:10 cheguei em Laguna Amarga e alguns minutos mais tarde, o ônibus para Puerto Natales chegou, partindo às 14:30. Era o fim. O corpo estava cansado, pernas e costas doloridas, mas a alma satisfeita. Quilômetros de trilhas e da mais pura beleza selvagem e colossal ficavam para trás sob a sombra das eternas e inabaláveis Torres. Um lugar realmente espetacular.

Dicas

  • Uma bota de qualidade e amaciada, uma boa mochila e boa barraca são essenciais. No verão, as temperaturas não são tão baixas e um saco de dormir com temperatura de conforto -5º é suficiente. Bastões de caminhada são opcionais, mas muito úteis para poupar os joelhos e ganhar velocidade. É possível comprar e alugar excelentes equipamentos por um bom preço em Puerto Natales.
  • Esse é um trekking mais exigente fisicamente do que tecnicamente, sendo recomendado ter bom preparo e alguma experiência prévia em trilhas com pernoite e no uso de equipamentos para aproveitar ao máximo a experiência e não se frustrar.
  • Se o objetivo é contemplação, o melhor é fazer o circuito em no mínimo 7 dias. Uma vez dentro do parque, o tempo de permanência fica a critério do viajante e de seu condicionamento físico.
  • Dependendo das condições climáticas, é possível que o Paso John Gardner esteja fechado. Certifique-se ao chegar no Parque.
  • A água do parque é potável e há vários pontos de água ao longo da trilha. Além de cantil ou garrafas abastecidas, ter uma caneca ou garrafa vazia à mão é uma boa ideia.
  • É proibido fazer fogo e só é permitido cozinhar nos refúgios e nas áreas destinadas à essa finalidade. Essa regra é observada a risca pelos guardas e desobedecê-la implica na expulsão do Parque, uma pesada multa de até 2 milhões de pesos e possibilidade de três anos de prisão (valores de 2016).

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