Como iniciar no trekking?

Pessoal, quero começar a fazer trilhas. Quem pode me dar dicas?” Essa é uma das perguntas que mais aparecem em grupos e fóruns de discussão sobre trilhas, travessias e montanhas. Um must das FAQ que nem sempre os mais antigos estão com tempo (ou paciência) para responder mais uma vez, pois como em todo grupo ou fórum, não se usa muito a ferramenta de busca.

Mas a pergunta é honesta e certamente todos já a fizeram, não necessariamente com as mesmas palavras. Como ela é recorrente nos grupos dos quais participo, escrevi um pequeno texto que deixei salvo nas notas do meu celular, e sempre que essa pergunta aparece, deixo ele como contribuição, pois considero um pouco mais pessoal e amigável que uma sessão de FAQ ou mandar um direto “use a busca!”. Desse pequeno texto, evoluiu esse artigo que agora se apresenta. 

Devaneios à parte, voltemos ao ponto principal do artigo: como começar nas trilhas, travessias e montanhas? Em minha opinião, o início e evolução em qualquer atividade, seja esportiva ou não, depende de três elementos: vontade, consciência e proatividade.

A VONTADE é o nosso acelerador. A vontade nos move para fazer o que tem algum significado afetivo para nós. Quando a vontade é muita, podemos chamá-la de desejo. Ao passo que a vontade é o acelerador, o medo funciona como o freio e como alarme do nosso sistema mental, com o fim de nos proteger dos perigos, identificar problemas e nos precaver de riscos. 

CONSCIÊNCIA, no atual contexto, refere-se a ter conhecimento quanto ao tipo de atividade que estará praticando, identificando e respeitando os riscos envolvidos e os limites corporais e mentais de cada um. Também se refere às condutas mais adequadas ao ambiente natural, seja no sentido de preservação ou de gestão de riscos.

Já PROATIVIDADE, acho que todos sabem o que significa. No contexto aqui apresentado, me refiro a ter iniciativa e não ficar esperando os outros fazerem algo que você pode fazer. É muito comum em grupos de amigos ou grupos específicos de trilhas e caminhadas surgirem queixas como “Ninguém organiza nada!”, “Ninguém me convida!”, “Quando vai ter um evento para iniciantes?”. Como em muitas outras coisas na vida, você pode escolher esperar os outros realizarem ou decidirem algo por você, ou pode escolher começar algo e trilhar seu próprio caminho. É claro que, de maneira geral, sempre começamos seguindo alguém. E claro que é mais seguro e cômodo deixar que os mais experientes cuidem de tudo pra você, mas lembre-se que todas as pessoas têm suas vidas pra cuidar, projetos e problemas pessoais, e salvo alguma cláusula contratual ou regimento interno de um grupo, ninguém tem obrigação moral ou legal de levar os outros para passear de graça. A informação hoje está ao alcance de qualquer um.

Agora vamos para as dicas práticas, aplicando os elementos VONTADE, CONSCIÊNCIA e PROATIVIDADE:

1. Antes de mais nada informe-se sobre os princípios éticos e conduta adequada em ambientes naturais, assim como os riscos envolvidos (acidentes, raios, animais peçonhentos, cabeça d´água, frio, insolação, exaustão entre outros) e aprenda a evitar ou contornar situações de perigo. Esqueça o oba oba de “pegar a mochila e sair por aí”: uma atividade de aventura é diversão, mas também é preparação, planejamento, conhecimento e técnica. É também se antecipar em caso de algum problema. Por exemplo: sempre informe seu itinerário e tenha informações atualizadas sobre o seu estado de saúde, incluindo tipo sanguíneo e eventuais alergias ou problemas. Isso vai ajudar a não colocar você e os outros em risco e a respeitar os limites do seu corpo e conhecimento. Lembre-se: acidente é ser atingido por um raio, dentro de casa, em um dia ensolarado. O resto é negligência ou imprudência.

2. Tendo plena consciência das características e riscos das atividade outdoor, você pode iniciar através de passeios guiados, sejam eles conduzidos por um amigo mais experiente ou por um guia pago. Essa talvez é a forma mais comum de um primeiro contato com atividades de aventura. Talvez não haja no seu círculo de amigos e conhecidos alguém  que pratique trekking ou montanhismo, mas é bem provável que você, em uma busca na internet, encontre algum grupo, clube ou associação para se juntar. Na opção de contratação de serviço, hoje há vários fornecedores, com diferentes preços e produtos. Use o Google, Facebook e o Instagram para buscar e avaliar, tire o escorpião do bolso e vá em frente. Na dúvida, prefira sempre ir com algum amigo mais experiente ou contrate um guia. Aliás, um guia certamente vai enriquecer a experiência, mas é recomendável se informar quanto às certificações, equipamentos e qualidade dos fornecedores: há muitos aventureiros de quintal se apresentando como guia ou condutor capacitado. 

3. Se estiver sem grana, procure visitar locais sem a exigência de guia, mas que apresentem rotas sinalizadas. Nos últimos anos os gestores de parques públicos no Brasil tem investido na estruturação para visitação, incluindo a sinalização e acessibilidade. O ICMBio vem fazendo um belo trabalho nas Unidades de Conservação federais em todo território nacional. Procure na internet que certamente você encontrará algum parque (público ou privado) perto de você. Aqui no DF e GO sempre indico a FLONA, Parque Nacional de Brasília, Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, Indaiá-Itiquira, Poço Azul, Chapada Imperial, Loquinhas, Poço Encantado, Água Fria e Cristais.

4. Evolua de forma gradual e consciente. Tão comum quanto a pergunta “Como faço para iniciar?” são os casos de gente completamente inexperiente e sem conhecimento que anseia por subir o Aconcágua e o Everest amanhã mesmo, sem nunca ter sequer acampado no quintal. Tudo bem que hoje em dia basta ter dinheiro para subir o Everest, mas as chances de insucesso e problemas são enormes. Vá devagar, comece leve e fácil, sentindo como o seu corpo e mente reagem, identificando seus pontos fortes e fracos. Após algumas trilhas de um dia e acampamentos, ouse uma trilha de dois dias. Após algumas trilhas de dois dias, ouse uma de três e assim por diante. Como disse o montanhista Maximo Kausch durante o Curso de Alta Montanha em 2017, “Quanto menos coisa você tiver que aprender na montanha, melhor!”. Além disso, arranje um jeito de estar sempre com bom condicionamento físico. Trilhas longas não são uma volta na sua quadra, preparação física é essencial. Para isso procure um profissional de educação física ou academia.

5. Aprenda técnicas básicas de progressão, navegação e orientação, assim como protocolos de gestão de risco e escolha e manuseio de equipamentos. Existem livros e dezenas de sites e vídeos em português sobre o tema. Em inglês, eles existem às centenas. Dependendo de onde você morar, cursos são ofertados com certa regularidade. A informação está ao seu alcance, seja pró-ativo!

Por hoje é só!

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